Carlos Fávaro diz que não houve alívio e que nenhuma regra mudou para inspeção de soja destinada à China

O Brasil não aliviou a fiscalização fitossanitária da soja destinada à China, após reclamações de exportadores de que mudanças feitas no processo a pedido dos chineses estavam tornando mais difíceis as emissões de certificados para a exportação, disse o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, nesta terça-feira (17).

Em entrevista a jornalistas, após evento em São Paulo, ele acrescentou que navios transportando soja com fiscalização pendente só deverão receber o certificado se a carga estiver dentro dos padrões exigidos pela China, principal importador mundial e destino de 80% da soja exportada pelo Brasil no ano passado.

“Nenhuma regra foi mudada, é atribuição do Ministério da Agricultura atuar na fiscalização. Nós temos a obrigação legal de fazer a fiscalização…”, disse Fávaro, ao comentar reportagens na imprensa local que indicaram o contrário na véspera.

Ele disse que a qualidade da soja do Brasil, maior produtor e exportador global, “é inquestionável”, mas que a preocupação dos chineses é legítima, após cargas registrarem a presença de ervas daninhas.

“A partir do momento que passamos a receber reclamações por parte dos compradores, do governo chinês, comunicamos Abiove, Anec (associações de exportadores), que estava tendo reclamação. As reclamações não pararam por parte do governo chinês. (Então) só sobra ao Ministério da Agricultura cumprir o seu papel: aumentamos a fiscalização”, afirmou.

Segundo o ministro, se tivesse ocorrido um “alívio” da parte do ministério, “os navios estavam navegando”, em referência a embarcações que não tiveram o certificado.

A situação sobre as fiscalizações veio à tona na semana passada, após o presidente da Cargill no Brasil dizer à Reuters que a empresa havia suspendido embarques de soja brasileira à China, devido a mudanças na inspeção para atender a normas mais rigorosas da China.

Conforme o executivo da Cargill, o sistema adotado é pouco usual e estava gerando discrepâncias nas amostras, dificultando a emissão de certificados para a realização da exportação.

Questionado sobre a Cargill, Fávaro afirmou que “cada um tem a sua estratégia comercial”.

Apesar de o presidente da Cargill, o principal exportador, ter afirmado que suspenderia negócios com soja brasileira, a programação de navios para exportação em março não se alterou em relação à semana passada.

Em um relatório separado divulgado nesta terça-feira, a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) estimou a exportação de soja do Brasil em março em 16,32 milhões de toneladas, ligeira redução na comparação com o número projetado na semana passada (16,47 milhões de toneladas).

Ao comentar reunião da véspera com representantes de exportadores de soja do Brasil (Anec e Abiove), Fávaro disse que a conversa foi “boa”, e que eles “compreenderam” a posição do ministério.

Procuradas para falar sobre a reunião com o ministro, Anec e Abiove não comentaram o assunto.

Novo protocolo

Fávaro disse que, se a China tivesse qualquer intenção de embargar a soja brasileira, já teria suspendido. “Este não é o tema”, comentou ele.

O ministro disse ainda que será aberta uma negociação para que se alcance um termo que satisfaça o pleito chinês, atenda a indústria brasileira e minimize ao máximo o risco sanitário.

Ele disse ainda que, neste contexto, o Brasil deverá propor um novo protocolo fitossanitário para exportação à China.

Para isso, os secretários do Ministério da Agricultura brasileiro vão viajar à China com o objetivo de discutir o assunto, na próxima semana, disse Fávaro.

Segundo a assessoria do ministro, deverão viajar para a China o secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, e o secretário de Comércio e Relações Internacionais, Luis Rua.