Boi gordo recua após máximas com pressão de fretes e frigoríficos; retenção avança com foco na B3
Após atingir a máxima histórica de cerca de R$ 353 por arroba (Cepea/Esalq) na virada de fevereiro para março, o boi gordo recuou ao longo do mês para R$ 346,45, uma queda de 1,9%.
Do lado da oferta, o cenário permanece praticamente inalterado, com pecuaristas ainda retendo animais. O principal movimento recente foi uma desaceleração do mercado, típica da segunda quinzena, período de consumo doméstico mais fraco.
Fernando Iglesias, analista de proteína animal da Safras & Mercado, aponta que o consumo interno já demonstrava dificuldade em absorver novos reajustes diante do nível elevado dos preços da carne bovina — o que limita espaço para novas altas no curto prazo.
O conflito no Oriente Médio e os impactos no boi
A escalada das tensões entre Irã e o eixo EUA/Israel trouxe efeitos indiretos ao mercado pecuário, especialmente via logística. O redirecionamento de rotas marítimas elevou o custo dos fretes e alongou prazos de entrega, afetando embarques para a Ásia.
“O impacto adicional foi estimado em cerca de US$ 570 mil por dia nas cargas em trânsito para a Ásia. Diante disso, o mercado futuro do boi registrou queda relevante e os frigoríficos intensificaram a pressão sobre a arroba”, afirma Iglesias.
Com a adaptação às novas rotas e a normalização gradual da logística, essa pressão perdeu força. Voltaram a prevalecer fundamentos como oferta restrita de boiadas e escalas de abate encurtadas.
Nesse contexto, os negócios voltaram a ocorrer próximos de R$ 350 por arroba no interior de São Paulo. Pecuaristas seguem cadenciando as vendas, favorecidos pelas boas condições de pastagem — cenário que tende a mudar com o avanço da seca.
Iglesias recomenda atenção às oportunidades de hedge na B3, que já indicava preços próximos de R$ 360 por arroba, garantindo margens positivas. No mercado de reposição, a tendência segue de alta, com valorização dos animais ao longo de 2026.
O que vem pela frente?
Para os próximos meses, a expectativa é de aumento gradual da oferta de gado com a chegada da seca, movimento sazonal que pode trazer um período de preços mais acomodados no curto prazo.
Apesar disso, Hyberville Neto, da HN Agro, avalia que o mercado segue estruturalmente sustentado e com viés positivo ao longo do ano.
“Entre abril e maio, estamos no final da safra, quando há maior disponibilidade de animais. Depois disso, a tendência é de um mercado mais firme. Em anos de retenção de fêmeas, como indicam os dados iniciais de 2026, a pressão de oferta costuma ser mais suave, já que menos vacas vão para o abate”, afirma.
Para o segundo semestre, o analista não descarta patamares entre R$ 380 e R$ 390 por arroba, considerados compatíveis com o atual ciclo pecuário — embora não configurem uma projeção fechada.
No mercado de reposição, a entrada do período de desmama deve ampliar a oferta de bezerros no curto prazo. Ainda assim, a expectativa é de menor disponibilidade ao longo do ano, sustentando os preços e mantendo a relação de troca pressionada para recriadores e invernistas.