Dólar salta mais de 1% e fecha a R$ 5,24 após mercado adiar corte de juros nos EUA para dezembro
O dólar teve uma sessão de fortes ganhos com a escalada nas tensões no Oriente Médio após as primeiras declarações do novo líder supremo do Irã. A inflação de fevereiro acima do esperado e a disparada do petróleo também movimentaram o câmbio.
Nesta quinta-feira (12), o dólar à vista (USDBRL) encerrou a sessão a R$ 5,2423, com alta de 1,61%.
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O movimento acompanhou o desempenho da moeda no exterior. Por volta das 17h (horário de Brasília), o DXY, indicador que compara o dólar a uma cesta de seis divisas globais, como euro e libra, operava com alta de 0,50%, aos 99.729 pontos.
O que mexeu com o dólar hoje?
O câmbio acompanhou a escalada das tensões no Oriente Médio.
Mais cedo, o novo líder supremo Mojtaba Khamenei afirmou que os Estados Unidos devem fechar todas as suas bases na região. O Estreito de Ormuz, que passa pela costa do Irã e fornece um quinto do petróleo do mundo, também deve permanecer fechado “como instrumento de pressão contra os EUA e Israel”.
Mojtaba assumiu o posto após a morte de seu pai, aitolá Ali Khamenei, em 28 de fevereiro em ataques conjuntos das forças militares norte-americanas e israelenses, e estopim para a guerra no Irã.
Ontem (11), dois navios-tanque foram incendiados em um porto no Irã após um ataque de supostos barcos iranianos carregados de explosivos. Horas antes, três outros navios haviam sido atingidos no Golfo Pérsico. A Guarda Revolucionária do Irã reivindicou a responsabilidade por pelo menos um desses ataques, contra um graneleiro tailandês incendiado que, segundo a Guarda, havia desobedecido às suas ordens.
“Os incidentes representam uma clara escalada na ameaça ao transporte por um dos corredores de petróleo mais estratégicos do mundo, mostrando que o Irã não apenas profere ameaças, mas também é capaz de retaliar de forma a interromper materialmente os fluxos e a infraestrutura de petróleo na região”, afirmaram os analistas do Bradesco BBI, Vicente Falanga e Ricardo França, em relatório.
Na visão deles, o que antes era visto majoritariamente como retórica geopolítica está se traduzindo em ataques diretos a embarcações comerciais, adicionando um prêmio adicional de risco geopolítico.
Com a escalada das tensões, o mercado voltou a considerar dezembro como o mês mais provável para a retomada do ciclo de corte nos juros dos Estados Unidos pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central norte-americano). Perto do fechamento, a probabilidade de corte na última reunião de política monetária era de 55,2%, de acordo com a ferramenta do CME Group.
Pela manhã, os traders precificavam 57,2% de chance de corte em setembro. Na véspera, a aposta majoritária para o início do afrouxamento monetário era o mês de julho.
Inflação e corte na Selic
No Brasil, os investidores dividiram as atenções entre os impactos da disparada dos preços do petróleo e novos dados de inflação.
No início da tarde, o governo anunciou medidas para conter os preços dos combustíveis, em meio a disparada do petróleo iniciada na semana passada. Desde o início da guerra no Irã, o barril do Brent, referência para o mercado global, acumula valorização de mais de 30%.
O governo zerou a cobrança dos impostos PIS/Cofins sobre diesel para importação e comercialização e anunciou a subvenção ao óleo diesel para produtores e importadores, a ser operada pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) condicionada à comprovação de repasse ao consumidor. Em contrapartida, o governo anunciou um imposto de 12% sobre exportação de petróleo.
A subvenção e zeragem dos impostos retiram R$ 0,32 cada do diesel nas refinarias. A redução total das medidas é de R$ 0,64 nas refinarias, segundo o governo. Já o impacto da renúncia do PIS/Cofins e da subvenção é de R$ 30 bilhões nos cofres públicos, de acordo com os cálculos do Ministério da Fazenda.
Segundo especialistas, as medidas não representam um ‘problema’ fiscal.
“Entendemos que a medida tem custo elevado, mas nasce fiscalmente equilibrada, dada a previsão do Imposto de Exportação e o aumento nos impostos decorrentes da alta do petróleo. Além disso, as autoridades enfatizaram o caráter temporário, condicionando a duração das ações ao próprio desenrolar da guerra”, explicou a equipe da Warren.
Na avaliação de André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, o impacto fiscal tende a ser neutro “ou muito próximo disso” e não deve gerar dúvidas quanto ao cumprimento da meta do arcabouço fiscal.
Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,70% em fevereiro, após alta de 0,33% no mês anterior, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No acumulado de 12 meses até fevereiro, o IPCA teve alta de 3,81%. Os resultados vieram acima do esperado.
Na avaliação de Mariana Rodrigues, economista da SulAmérica Investimentos, o IPCA surpreendeu negativamente, apresentando uma composição qualitativa pior do que o esperado.
Para a Genial, o número fortaleceu as apostas de uma redução do ritmo de flexibilização para um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, de 15% ao ano para 14,75% ao ano. A próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) está prevista para a quarta-feira (18).