Barril acima de US$ 120? O que esperar dos preços do petróleo com a continuidade do conflito no Irã

Os preços do petróleo já subiram mais de 30% desde o início da guerra no Irã. Nesta segunda-feira (9), os contratos futuros do Brent ultrapassaram a cotação de US$ 100 pela primeira vez desde 2022. 

Por volta de 12h (horário de Brasília), os contratos futuros do Brent, principal referência do mercado mundial, subiam 10,08%, a US$ 102,07, na Intercontinental Exchange (ICE), em Londres.  


No mesmo horário, os contratos do West Texas Intermediate (WTI), referência para o mercado norte-americano, tinham alta de 9,80%, a US$ 99,72 o barril, na New York Mercantile Exchange (Nymex), nos EUA.   

Considerado um dos “termômetros” do mercado para medir o apetite e aversão a risco dos investidores, o petróleo ganha força em meio a escalada das tensões geopolíticas — com novos desdobramentos neste fim de semana. 

Neste domingo (8), o Irã nomeou Mojtaba Khamenei para suceder seu pai, Ali Khamenei – morto nos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra Teerã em 28 de fevereiro –, como líder supremo, sinalizando que os linha-dura continuam firmemente no comando em Teerã. 

Anteriormente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump disse que gostaria de ser envolvido na escolha do próximo líder do Irã, assim como na Venezuela. Ele também anunciou, em outras ocasiões, que a nomeação de Mojtaba seria “inaceitável”. 

Além disso, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos anunciaram que reduziram a produção de petróleo devido à falta de espaço para armazenamento, já que os barris não estão sendo escoados pelo Estreito de Ormuz desde o último dia 28.

A Saudi Aramco, maior produtora do petróleo dio mundo, por sua vez, ofereceu fornecimento imediato de petróleo por meio de uma série de licitações. A companhia tem redirecionado cargas do óleo bruto para instalações no Mar Vermelho, na costa oeste da Arábia Saudaita, para evitar a região do Estreito de Ormuz. 

  • FIQUE SABENDO: O Estreito de Ormuz, controlado pelo país persa, é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo e responsável pelo escoamento de cerca de um quinto do comércio mundial do óleo bruto. 

O Financial Times também noticiou que os ministros das finanças do G7 e a Agência Internacional de Energia (AIE) discutirão uma liberação conjunta de reservas de petróleo de emergência, ainda nesta segunda-feira (9).

Disparada dos preços sem fim?  

Os preços do petróleo devem continuar em crescente alta no curto prazo, na avaliação dos analistas.  

“Sem clareza sobre a duração do conflito no Oriente Médio — nem sobre o grau de interrupção no Estreito de Ormuz — preferimos cautela em relação a apostar em uma reversão da recente queda dos mercados”, afirmaram a equipe de economia do UBS BB.  

Na visão deles, apesar do prêmio de risco substancial já incorporado aos preços de energia, a volatilidade permanece relativamente baixa, deixando espaço para que as condições piorem antes de melhorar. 

A equipe de análise do BTG Pactual considera que os preços do petróleo devem manter a trajetória de fortes altas em, pelo menos, três condições:  

  1. intensificação dos ataques à infraestrutura energética (como refinarias, terminais e campos de petróleo);  
  2.  continuidade do fechamento do Estreito de Ormuz — apesar de alguns navios chineses transportando petróleo iraniano ainda conseguirem atravessar; e  
  3.  paralisações de produção em vários países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), incluindo Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos, à medida que o armazenamento em terra também se torna um problema. 

Para a equipe, apesar do preço já apresentar um movimento “bastante esticado”, ainda não há sinais claros de uma reversão do fluxo comprador.  

Nas contas dos analistas técnicos Lucas Costa e Gabriel Sporck, o barril do petróleo Brent pode atingir US$ 120 no curto prazo, no maior valor desde junho de 2022 – sendo a principal resistência estrututal do modelo do banco.  

Já para o analista Jorge Gabrich, do Scotiabank, os preços do petróleo podem começar a se acomodar nas próximas semanas, “caso o mercado se convença de que o conflito não se ampliará para uma guerra regional envolvendo infraestrutura do Golfo ou o Estreito de Ormuz”. 

Petróleo: Como a commodity reagiu na Guerra do Golfo  

Após a invasão do Kuwait pelo Iraque em 2 de agosto de 1990, o Brent disparou para mais de US$ 40 e atingiu média de US$ 36 em outubro de 1990. E mesmo antes do início da Operação Tempestade no Deserto, os preços começaram a cair quando ficou claro que o conflito não se transformaria em uma guerra regional ampla. O Brent caiu para menos de US$ 20 em fevereiro de 1991, um mês após o início da operação, embora a produção dos dois países ainda estivesse próxima de zero. 

Já antes da Guerra no Iraque, também conhecida como a Segunda Guerra do Golfo, o Brent subiu cerca de 14% entre novembro de 2002 e fevereiro de 2003. Depois do início do conflito, em março, os preços caíram cerca de 24%, com média de US$ 25 em abril, enquanto a produção iraquiana permanecia muito baixa. 

No conflito atual, na visão do analista Jorge Gabrich, do Scotiabank, o mercado do petróleo já antecipava a possibilidade de ataques no Irã, com a alta de cerca de 18% entre meados de dezembro e final de fevereiro.  

Risco de choque de petróleo à la 1973 está na mesa?  

Segundo o analista da Empiricus, Matheus Spiess, apesar da escalada das tensões, o cenário atual não apresenta um risco de choque do petróleo nos moldes da década de 1970.  

“Desde então, a economia global tornou-se relativamente menos dependente da commodity e o fluxo energético mundial tornou-se relativamente menos dependente do Estreito de Ormuz”, destacou o analista.  

Para ele, embora o preço do barril tenha avançado de forma expressiva nas últimas semanas, a magnitude do movimento ainda está distante da reação observada naquele período. “Ainda assim, o cenário atual não deve ser minimizado.” 

Spiess ainda afirma que, mesmo sem repetir o choque dos anos 1970, as tensões geopolíticas no Oriente Médio podem gerar impactos sobre inflação, expectativas e, consequentemente, o comportamento dos ativos globais.   

Na mesma linha, a XP considera que o conflito “provavelmente” impulsionará ainda mais o sentimento de aversão a risco nos mercados globais.  

Os preços mais elevados da energia também devem elevar a inflação nas principais economias do mundo e, assim, reduzir a margem para cortes nas taxas de juros. A disparada dos preços do petróleo também poderá desacelerar a atividade econômica global.  

No caso do Brasil, especificamente, o petróleo representa uma parcela “significativa” do Produto Interno Bruto (PIB) e das receitas do governo.