Resumo Bitcoin: A moeda na Era Digital

Introdução

Este documento apresenta um resumo detalhado e uma análise da obra “Bitcoin: A Moeda na Era Digital”, de Fernando Ulrich. O objetivo é explorar os conceitos fundamentais do Bitcoin, sua história, funcionamento, benefícios, desafios e implicações econômicas e sociais, conforme abordado pelo autor.

A análise busca ser informativa, analítica e acessível, mantendo a fidelidade às ideias originais do livro, ideal para estudantes e entusiastas de criptomoedas.

Bitcoin: A moeda na Era Digital

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Prefácio: Bitcoin, a Nova Moeda Internacional por Jeffrey Tucker

O prefácio, escrito por Jeffrey Tucker, contextualiza o surgimento do Bitcoin como uma resposta à nacionalização da moeda e aos problemas decorrentes do sistema monetário fiduciário.

Tucker argumenta que, por séculos, a moeda era uma commodity universal, como ouro ou prata, que promovia o livre comércio e limitava o poder governamental.

No entanto, o século XX testemunhou a nacionalização da moeda por meio de bancos centrais, o que levou a guerras, instabilidade econômica e o aumento do poder estatal.


O autor destaca que, apesar das tentativas de economistas austríacos de reformar o sistema monetário, a situação permaneceu inalterada até 2008, quando Satoshi Nakamoto introduziu o Bitcoin.

O Bitcoin é apresentado como uma reinvenção da moeda em código de computador, superando problemas de centralização e “gasto duplo” que afetaram tentativas anteriores.

Sua natureza de código-fonte aberto e rede distribuída o torna resistente a pontos únicos de falha.Tucker enfatiza a genialidade do Bitcoin, que, em apenas dois anos, atingiu a paridade com o dólar americano, provando ser uma moeda internacional emergente criada pelas forças de mercado.

Ele ressalta que o Bitcoin possui as melhores características do dinheiro – escassez, divisibilidade, portabilidade – e vai além, sendo incorpóreo e permitindo transferências globais a custo quase nulo, sem intermediários. Isso, segundo Tucker, oferece a perspectiva de restaurar a solidez e o universalismo do padrão-ouro, mas fora do controle governamental.


O prefácio conclui que, apesar das tentativas governamentais de controlar ou intervir no Bitcoin, a tecnologia é superior devido às suas taxas de transação praticamente nulas, segurança, proteção contra fraude, velocidade e privacidade.

A criptomoeda, portanto, oferece a possibilidade de reverter as tendências de guerra, instabilidade econômica e exploração em massa causadas pela nacionalização da moeda, contribuindo para um novo mundo de liberdade.

A lição, segundo Tucker, é a humildade e a abertura para as surpresas que o mercado pode oferecer, superando as expectativas teóricas.

Capítulo I: Introdução

Fernando Ulrich inicia o Capítulo I, intitulado “Introdução”, destacando a complexidade de compreender o Bitcoin devido à sua natureza inovadora e à abrangência de conceitos de diversas áreas do conhecimento.

Ele o define como uma forma de dinheiro puramente digital, não emitida por governos, cujo valor é determinado pelo mercado. Ulrich compara a revolução do Bitcoin no dinheiro à revolução do e-mail na comunicação, enfatizando sua capacidade de transferir fundos globalmente de forma rápida, barata e segura, sem a necessidade de intermediários.

O autor delineia a estrutura do livro, indicando que a primeira parte explicará a tecnologia Bitcoin, suas características, funcionamento, vantagens e desafios.

Em seguida, o livro abordará o contexto histórico e o surgimento do Bitcoin, revelando como ele é resultado de anos de pesquisa em ciência da computação e uma resposta direta à intervenção no sistema financeiro moderno.

A parte mais densa da obra será dedicada à análise econômica do Bitcoin, utilizando a teoria monetária de Ludwig von Mises para explorar suas particularidades, como a falta de lastro, intangibilidade, oferta inelástica e ausência de um emissor central.

O capítulo concluirá com uma revisão da definição de moeda.Finalmente, Ulrich menciona que a última parte do livro defenderá a liberdade monetária, explicando por que tentativas anteriores de economistas liberais falharam e como o Bitcoin se encaixa nesse cenário.

Ele ressalta que, embora o livro seja uma introdução para o público leigo, é, acima de tudo, uma obra de ciência econômica aplicada à inovação monetária, buscando contribuir para o progresso da economia e o entendimento dos fenômenos monetários sob a ótica da Escola Austríaca.

O autor conclui afirmando que o Bitcoin é a maior inovação tecnológica desde a internet, com potencial revolucionário para o futuro da moeda e da liberdade individual.

Capítulo I: Bitcoin: O que é e como funciona

1. O que é Bitcoin

Nesta seção, Fernando Ulrich define o Bitcoin como uma moeda digital peer-to-peer
(ponto a ponto), de código aberto e que não depende de uma autoridade central.

Ele destaca que o Bitcoin é o primeiro sistema de pagamentos global totalmente
descentralizado.

Ulrich explica que, antes do Bitcoin, todas as transações online exigiam um terceiro intermediário de confiança (como PayPal ou Mastercard) para evitar o problema do “gasto duplo” – a possibilidade de uma mesma unidade de dinheiro digital ser gasta mais de uma vez.

O Bitcoin resolve esse problema de forma revolucionária, eliminando a necessidade de um intermediário.


A solução do Bitcoin para o problema do gasto duplo reside na distribuição de um
registro histórico de transações para todos os usuários do sistema, por meio de uma
rede peer-to-peer.

Todas as transações na rede Bitcoin são registradas em um livro-razão público e distribuído, conhecido como blockchain. O blockchain é um grande banco de dados público que contém o histórico de todas as transações realizadas.


Novas transações são verificadas contra esse blockchain para garantir sua validade e evitar gastos duplos.

Como funciona

Ulrich explica que o funcionamento do Bitcoin se baseia no uso da criptografia de chave pública para verificar transações e prevenir o gasto duplo.

Cada usuário possui duas chaves: uma privada (secreta) e uma pública (compartilhável). Ao transferir
bitcoins, o remetente cria uma “transação” com a chave pública do destinatário e a assina com sua chave privada. Essa assinatura permite que qualquer um verifique autenticidade da transação.

A transação é então registrada, carimbada com data e hora, e adicionada a um “bloco” no blockchain, garantindo um registro atualizado e verificado de todas as transações na rede.


O autor detalha o papel dos “mineradores” na rede Bitcoin. Como não há uma autoridade central, a rede depende dos usuários que fornecem poder computacional para registrar e reconciliar transações.

Os mineradores são recompensados com bitcoins recém-criados por resolverem problemas matemáticos complexos que verificam as transações no blockchain.

Esse processo de mineração é comparado à busca por números primos, onde a dificuldade aumenta à medida que mais bitcoins são encontrados, imitando a escassez de commodities como o ouro.

O protocolo do Bitcoin foi projetado para que a taxa de criação de novos bitcoins seja previsível e
limitada, com um limite máximo de 21 milhões de bitcoins a serem minerados, estimado para o ano de 2140.

Após esse limite, os mineradores serão recompensados apenas com taxas de serviço pela verificação de transações, garantindo a continuidade da rede.

O uso de pseudônimo

Fernando Ulrich aborda a questão do anonimato no Bitcoin, esclarecendo que, ao contrário da percepção popular, o Bitcoin não oferece anonimato completo, mas sim pseudonimato.

Ele compara o Bitcoin ao dinheiro físico, onde não há intermediários registrando transações entre duas partes que se conhecem.

No entanto, diferentemente do dinheiro físico, todas as transações de Bitcoin são registradas no
blockchain, um registro público e imutável.


Embora as chaves públicas (endereços Bitcoin) registradas no blockchain não estejam
diretamente vinculadas à identidade de uma pessoa, Ulrich explica que, se a identidade de alguém for associada a uma chave pública, todas as transações ligadas a essa chave podem ser rastreadas.

Ele aponta que vincular uma identidade do mundo real a um endereço Bitcoin não é tão difícil quanto parece, pois informações de identificação (como endereço IP) são frequentemente registradas em transações online ou em casas de câmbio de Bitcoin.

Para aumentar o pseudonimato, seria necessário o uso de softwares de anonimato como Tor e cuidado para não transacionar com endereços que possam ser rastreados.


Ulrich também menciona estudos que demonstram a possibilidade de revelar identidades de usuários de Bitcoin por meio de técnicas de agrupamento baseadas em comportamento e análise estatística da rede de transações.

Ele conclui que, apesar dessas vulnerabilidades, os usuários de Bitcoin desfrutam de um nível de privacidade superior ao das transações financeiras tradicionais, que exigem intermediários e,
consequentemente, revelam identidades.

2.Benefícios do Bitcoin

Ulrich aborda os benefícios do Bitcoin, começando pela pergunta fundamental: por que usar Bitcoin em vez de moedas tradicionais? Ele sugere que o Bitcoin deve ser visto como um novo sistema de pagamentos, não apenas um substituto para moedas existentes.


Menores custos de transação: O autor destaca que a ausência de um terceiro intermediário nas transações de Bitcoin resulta em custos e velocidades de transação significativamente melhores do que as redes de pagamento tradicionais. Isso possibilita miscro pagamentos e inovações associadas.

O Bitcoin promete reduzir custos para pequenos comerciantes e remessas globais de dinheiro, aliviar a pobreza ao facilitar o acesso ao capital, proteger indivíduos contra controles de capital e censura, garantir privacidade financeira a grupos oprimidos e estimular a inovação.


Ele exemplifica com o caso de pequenos negócios que adotam Bitcoin para evitar as altas taxas de cartões de crédito e o risco de fraude de estorno (charge-back fraud), que não existe no Bitcoin devido à sua natureza de pagamentos não reversíveis.


Embora os estornos protejam os consumidores, a ampliação das opções de pagamento beneficia a todos, permitindo que consumidores e comerciantes escolham entre a proteção dos cartões de crédito (com custos mais altos) ou a economia e privacidade do Bitcoin.


O Bitcoin também é visto como uma grande promessa para o futuro das remessas de dinheiro de baixo custo. Ulrich aponta que, em 2012, imigrantes enviaram bilhões de dólares em remessas, com taxas médias de serviço em torno de 9% em 2013.

Em
contraste, as taxas de transação na rede Bitcoin são mínimas (menos de 0,0005 BTC, ou 1% da transação), tornando as remessas baratas e instantâneas.

Essa eficiência tem atraído investidores e até mesmo empresas tradicionais de remessas, como
MoneyGram e Western Union, estão considerando integrar o Bitcoin em seus modelos de negócios.

Potencial arma contra a pobreza e a opressão

Ulrich argumenta que o Bitcoin tem o potencial de melhorar a vida dos mais pobres no
mundo, aumentando o acesso a serviços financeiros básicos.

Ele observa que uma grande parcela da população em países em desenvolvimento tem acesso limitado a esses serviços devido aos altos custos para as instituições financeiras tradicionais.

O Bitcoin, como um sistema de pagamentos aberto, pode fornecer acesso barato a serviços financeiros em escala global, complementando iniciativas como o M-Pesa, um sistema bancário móvel de sucesso em algumas regiões.


Além disso, o Bitcoin oferece uma alternativa para pessoas em nações com controles de capital rigorosos e moedas depreciadas. Devido ao seu limite fixo de emissão e à ausência de uma autoridade central que possa manipular a oferta ou reverter transações, o Bitcoin proporciona uma “válvula de escape” para indivíduos que buscam proteger seu capital da má gestão de bancos centrais e da inflação.

Ulrich cita o exemplo da Argentina, onde o Bitcoin tem sido adotado em resposta à alta inflação e
aos controles de capital.


O autor também destaca que o Bitcoin pode proporcionar privacidade financeira a indivíduos em situações de opressão ou emergência. Ele menciona exemplos legítimos para a busca de privacidade, como mulheres fugindo de parceiros abusivos ou pessoas buscando serviços de saúde controversos.

O Bitcoin oferece um nível de privacidade semelhante ao do dinheiro físico, mas com a conveniência da
transferência digital, o que pode ser crucial para cidadãos oprimidos por governos despóticos.

Estímulo à inovação financeira

Ulrich vê o Bitcoin como uma plataforma promissora para a inovação financeira. Ele explica que, por serem essencialmente pacotes de dados, os bitcoins podem ser usados para transferir não apenas moeda, mas também ações, apostas e informações sensíveis.

O protocolo do Bitcoin já incorpora atributos como miscro pagamentos, mediações de litígios, contratos de garantia e propriedade inteligente, o que facilita o desenvolvimento de serviços como tradução online, processamento instantâneo de pequenas transações e crowdfunding.


Além disso, programadores podem construir protocolos alternativos sobre o protocolo do Bitcoin, da mesma forma que a web e o e-mail operam sobre o TCP/IP. Ulrich cita exemplos de inovações já propostas ou desenvolvidas, como uma nova camada de protocolo para melhorar a estabilidade e segurança da rede, um serviço de tabelião digital para armazenar provas de existência de documentos, e modelos para cifrar comunicações de e-mail.

Ele enfatiza que o Bitcoin é a base para novas camadas de funcionalidade e que as políticas públicas devem ser cautelosas para não suprimir essas inovações em desenvolvimento.

3.Desafios do Bitcoin

Ulrich também aborda os desafios e desvantagens do Bitcoin, que os potenciais
usuários devem considerar.


Volatilidade: O autor destaca a significativa volatilidade no preço do Bitcoin desde 2011, comparando-a a bolhas especulativas tradicionais, onde a cobertura otimista da imprensa impulsiona o preço, seguido por quedas abruptas.

Essa volatilidade levanta ceticismo sobre o futuro da moeda. No entanto, Ulrich sugere que essas flutuações podem ser vistas como testes de estresse e podem diminuir com o tempo, à medida
que o mercado amadurece. Ele argumenta que, embora a volatilidade seja um problema se o Bitcoin for usado como reserva de valor ou unidade de conta, ela é menos preocupante quando o Bitcoin é empregado como meio de troca.

Comerciantes podem precificar produtos em moeda tradicional e aceitar o equivalente em Bitcoin, e clientes que adquirem Bitcoin para uma única compra não se preocupam com o câmbio futuro, mas sim com a redução dos custos de transação no presente.

A utilidade do Bitcoin como meio de troca pode explicar sua popularidade entre comerciantes, apesar da volatilidade de seu preço.

Uso para fins criminosos

Ulrich aborda a preocupação de que o Bitcoin possa ser usado para fins criminosos, como lavagem de dinheiro ou comércio ilícito, devido à sua natureza pseudônima.

Ele reconhece que, assim como o dinheiro físico, o Bitcoin pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal. O autor cita o caso do Silk Road, um mercado online na deep web que utilizava o Bitcoin para transações de produtos ilícitos.

No entanto, Ulrich ressalta que as vendas do Silk Road representavam uma parcela insignificante do total da economia Bitcoin, e que a associação do site com o Bitcoin manchou a reputação da criptomoeda.


Outra preocupação é o uso do Bitcoin para lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo. Ulrich compara o Bitcoin ao Liberty Reserve, um serviço centralizado de moeda digital que foi fechado por alegações de lavagem de dinheiro.

Ele destaca as diferenças cruciais: o Liberty Reserve era centralizado e opaco, enquanto o Bitcoin é
descentralizado e possui um registro público de todas as transações (blockchain).


Embora lavadores de dinheiro possam tentar proteger suas identidades, seus registros de transações no blockchain são sempre públicos e acessíveis às autoridades, tornando o Bitcoin uma via mais arriscada para lavagem de dinheiro do que sistemas centralizados.

Além disso, muitas casas de câmbio de Bitcoin estão se adequando às regulações de combate à lavagem de dinheiro, o que, combinado com o registro público do blockchain, torna o Bitcoin menos atraente para atividades ilícitas.


Ulrich conclui que muitas das desvantagens potenciais do Bitcoin são as mesmas enfrentadas pelo dinheiro físico, que historicamente tem sido o veículo preferido para atividades criminosas, mas que raramente se considera banir o dinheiro físico.

Ele sugere que os reguladores devem ser cautelosos ao considerar o Bitcoin, reconhecendo suas semelhanças e diferenças com as moedas tradicionais.

4.Regulação e legislação

Fernando Ulrich discute a complexidade da regulação do Bitcoin, que não se encaixa facilmente nas definições legais existentes de moeda, instrumentos financeiros ou instituições.

Ele observa que o Bitcoin possui características de sistema eletrônico de pagamentos, moeda e commodity, o que o coloca sob o escrutínio de diversos reguladores em diferentes países.

Embora alguns países já tenham emitido pareceres e diretrizes, a incerteza regulatória ainda persiste, especialmente em 2014, ano de publicação do livro, quando o Brasil ainda não havia emitido nenhuma
regulamentação específica.


Ulrich enfatiza que as questões legais certamente influenciarão o desenvolvimento do Bitcoin globalmente. Ele alerta para os perigos da regulação excessiva, que, no pior cenário, poderia impedir que negócios legítimos se beneficiem da rede Bitcoin, sem, no entanto, deter o uso da criptomoeda por criminosos.

Ele argumenta que, se as casas de câmbio forem sobrecarregadas por regulamentações e fecharem, atividades ilícitas ainda poderiam ocorrer por meio de transações diretas, prejudicando apenas
as transações benéficas.

O autor sugere que os reguladores devem ser cautelosos para não sufocar a inovação e o potencial do Bitcoin com medidas excessivamente restritivas.

Capítulo II: A história e o contexto do Bitcoin

1.A Grande Crise Econômica do século XXI e a Perda de Privacidade
Financeira

Fernando Ulrich inicia o Capítulo II contextualizando o surgimento do Bitcoin em meio à Grande Crise Econômica do século XXI, que teve como um de seus marcos a quebra do Lehman Brothers em 2008.

Ele argumenta que, embora a coincidência possa ser notada, o Bitcoin é, em parte, uma resposta ao avanço do estado interventor, às medidas arbitrárias das autoridades monetárias e à crescente perda de privacidade financeira enfrentada pelos cidadãos.


Ulrich critica a visão comum que atribui a crise à ganância, desregulamentação ou ao próprio capitalismo, afirmando que o verdadeiro culpado é o “socialismo aplicado ao âmbito monetário”, dada a forte intervenção governamental no setor financeiro.

Ele descreve o arranjo monetário ocidental como baseado em dois pilares: o monopólio da emissão de moeda por parte do estado (delegado ao banco central) e o controle do sistema bancário pelo banco central. Para Ulrich, esse arranjo é a antítese do livre mercado e não pode ser considerado um exemplo de capitalismo.


O autor também destaca que as moedas emitidas pelos governos atualmente não possuem lastro, dependendo apenas da confiança nos governos.

Essa falta de lastro e a intervenção estatal no sistema monetário são apresentadas como fatores cruciais que levaram à necessidade de uma alternativa como o Bitcoin, que surge como uma inovação tecnológica impulsionada pela era da computação e pela revolução digital.

2. O bloco gênese

Fernando Ulrich descreve a evolução do sistema monetário, desde o padrão-ouro, que impunha restrições à inflação governamental, até a era do papel-moeda fiduciário, iniciada em 1971 com a suspensão da conversibilidade do dólar em ouro por Richard Nixon.

Ele argumenta que, desde então, os bancos centrais podem imprimir quantidades quase ilimitadas de dinheiro, correndo o risco de perder a confiança dos cidadãos na moeda, como ocorre em episódios de hiperinflação.


Ulrich explica que a impressão de dinheiro tem sido historicamente uma forma de os governos financiarem déficits, guerras ou um estado perdulário. Ele diferencia a sofisticação do mecanismo de impressão de dinheiro atual em comparação com métodos antigos, como a diluição de metais preciosos ou a impressão desenfreada de papel-moeda na República de Weimar.

Atualmente, o processo inflacionário é mais indireto e envolve não apenas o Banco Central, mas todo o sistema bancário.

O autor define inflação como o aumento da quantidade de moeda em uma economia, resultando na elevação dos preços. Ele esclarece que a oferta de moeda moderna inclui não apenas cédulas e moedas, mas também depósitos bancários, que desempenham a mesma função da moeda física. Assim, a emissão de moeda ou a criação de depósitos bancários “do nada” gera inflação, diminuindo o poder de compra de cada unidade monetária.

Ulrich detalha como os depósitos bancários se multiplicam por meio do mecanismo de reservas fracionárias, onde os bancos guardam apenas uma fração do dinheiro depositado e emprestam o restante. Esse arranjo concede aos bancos o poder de criar moeda por meio da expansão do crédito,
tornando-os “criadores de moeda”.

Além de aumentar a quantidade de moeda, a expansão do crédito pelo sistema bancário contribui para a formação de ciclos econômicos.

Fernando Ulrich descreve o “bloco gênese” do Bitcoin, que foi publicado por Satoshi Nakamoto em 31 de outubro de 2008, em uma lista de discussão online de criptografia, com o paper “Bitcoin: a Peer-to-Peer Electronic Cash System”.

A ideia central era um “dinheiro eletrônico totalmente descentralizado e peer-to-peer, sem a necessidade de um terceiro fiduciário”. Ulrich menciona que a ideia não era totalmente nova, tendo sido brevemente explicitada por Wei Dai em 1998, e que Satoshi o cita como referência.


O autor destaca que, embora o paper de Satoshi possa parecer técnico, suas postagens em fóruns revelam suas razões ideológicas e seu conhecimento econômico. Ulrich cita uma postagem em que Satoshi concorda que a criptografia não resolverá todos os problemas políticos, mas pode “vencer uma grande batalha na corrida armamentista e ganhar um novo território de liberdade por vários anos”, comparando o Bitcoin a redes P2P resilientes como Gnutella e Tor, que persistem apesar das tentativas governamentais de controle.

Outra postagem de Satoshi corrige a percepção de que o Bitcoin teria uma inflação de 35%, explicando que a oferta de bitcoins é previsível e que, se a oferta de moeda cresce na mesma taxa de crescimento
de pessoas que a usam, os preços permanecem estáveis; caso contrário, haverá deflação e o valor dos primeiros detentores aumentará.


O vestígio mais interessante da visão crítica de Satoshi sobre o sistema monetário e bancário vigente, segundo Ulrich, está gravado no próprio bloco gênese, o primeiro bloco do blockchain. Em 3 de janeiro de 2009, a primeira transação do Bitcoin foi registrada com a mensagem: “THE TIMES 03/JAN/2009 CHANCELLOR ON BRINK OF SECOND BAILOUT FOR BANKS”.

Ulrich interpreta essa alusão à manchete do jornal britânico The Times como um claro indicativo da visão crítica de Satoshi sobre a desordem financeira e o sistema bancário.

Nesse contexto, o Bitcoin surge como uma tentativa de resposta à instabilidade financeira causada pelo monopólio estatal da moeda e pelo sistema bancário de reservas fracionárias.

Poucos dias depois, o cliente Bitcoin v0.1 foi disponibilizado para download, marcando o início do “grande experimento monetário e bancário do novo milênio”.

3.O que possibilitou a criação do Bitcoin

Ulrich explica que a expansão do crédito pelo sistema bancário, sob o regime de reservas fracionárias, permite que os bancos concedam empréstimos como se houvesse poupança disponível, mesmo quando não há. Isso leva a investimentos insustentáveis e, eventualmente, a uma recessão, quando os excessos do boom precisam ser corrigidos.

Ele aponta que a redução artificial das taxas de juros pelos bancos centrais é um sinal que antecede esses ciclos de auge, injetando moeda no sistema bancário e propiciando uma maior expansão do crédito.


O autor utiliza a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos para ilustrar as crises financeiras do início do milênio. Ele argumenta que a redução artificial dos juros pelo Federal Reserve após a bolha da internet em 2001 impulsionou um boom no setor imobiliário americano, inflando uma bolha de proporções catastróficas.

A mesma receita de juros baixos foi seguida por outros bancos centrais, resultando em bolhas
imobiliárias globais. Ulrich critica a crença dos banqueiros centrais de que haviam domado os ciclos econômicos, afirmando que a realidade revelou as consequências perversas de um sistema monetário e bancário sujeito a intervenção absoluta.


A crise, que começou em 2007 com as hipotecas de alto risco (subprimes) e o consequente “aperto da liquidez”, levou ao congelamento do setor financeiro, queda dos preços dos ativos e insolvência de grandes bancos. Ulrich descreve a situação como uma versão moderna da corrida bancária, onde a interconectividade e a interdependência do sistema financeiro o levaram à beira do colapso.

Ele menciona os resgates de bancos, fusões forçadas e acordos de “troca de liquidez” entre bancos
centrais como medidas desesperadas para evitar o colapso total.


A partir da falência do Lehman Brothers em setembro de 2008, Ulrich descreve uma era de discricionariedade e arbitrariedade sem precedentes por parte dos bancos centrais. Ele argumenta que, apesar de não terem previsto a crise, as autoridades monetárias gozavam de grande confiança, o que lhes deu carta branca para implementar medidas extraordinárias.

O autor lista uma série de ações extremas tomadas desde 2008, incluindo resgates de bancos, nacionalizações, trocas de liquidez entre bancos centrais, monetização de dívida soberana, redução das taxas de juros a zero e programas de “afrouxamento quantitativo” (QE).


Ulrich critica os resultados dessas medidas, que incluem a quadruplicação do balanço do Federal Reserve, uma “guerra cambial” global, a imposição de controles de capital velados e a reinflação dos preços de ativos financeiros e imobiliários, criando uma nova bolha com potencial de destruição ainda maior.

Ele lamenta que o cidadão comum assista ao valor de seu dinheiro esvair-se enquanto os bancos centrais testam teorias sob o pretexto de estabilidade de preços, resultando na perda constante do
poder de compra da moeda.

O autor enfatiza a impotência do cidadão diante da arbitrariedade dos governos e de um sistema bancário cúmplice.


Além disso, Ulrich aborda a crescente perda de privacidade financeira, justificada pela
ameaça do terrorismo após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Ele argumenta
que, sob o pretexto de combater o financiamento do terrorismo e a lavagem de dinheiro, os cidadãos de bem são os que mais sofrem, encontrando dificuldades para proteger seus ativos e movê-los para fora do alcance dos governos.

Ele cita os Estados Unidos como um exemplo de país que avançou significativamente na agenda contra a privacidade financeira, com acordos secretos e legislações como a FATCA, que obriga instituições financeiras estrangeiras a reportar informações de cidadãos americanos, violando seu direito à privacidade.

Ulrich conclui que o milênio atual é marcado pela perda de privacidade financeira, autoridades monetárias centralizadas e opressivas, e bancos cúmplices no desvario monetário.

No entanto, ele vê nesse cenário desalentador um terreno fértil para a busca de novas soluções, como o Bitcoin, que surgiu um mês após a quebra do Lehman Brothers.

Fernando Ulrich argumenta que os motivos fundamentais para a criação do Bitcoin são a instabilidade do sistema financeiro, o elevado nível de intervenção estatal e a crescente perda de privacidade financeira.

Ele ressalta que, embora a intervenção governamentais na moeda seja milenar, a diferença atual é o grau de intervenção.

O autor explica que o Bitcoin não surgiu antes porque a tecnologia da internet não estava disponível e madura como está hoje, sendo a rede mundial de computadores o que viabilizou sua criação.

O Bitcoin é, na verdade, o resultado de mais de duas décadas de pesquisa e desenvolvimento em ciência da computação, especialmente em moedas criptográficas e criptografia.


Ulrich detalha que o Bitcoin é a junção de duas tecnologias principais: a distribuição de um banco de dados por meio de uma rede peer-to-peer e a criptografia. A rede peer-to-peer, que não possui um servidor central e onde cada nó funciona como cliente e servidor, permite o compartilhamento de dados sem a necessidade de um intermediário centralizado.

Essa arquitetura descentralizada, que ganhou notoriedade com o surgimento da internet e o Napster, é fundamental para o Bitcoin, pois garante a distribuição do blockchain a todos os usuários, assegurando que todos os nós da rede tenham uma cópia atual e fidedigna do histórico de transações. Isso torna redundante a existência de um servidor central e impossibilita o gasto duplo.


Quanto à criptografia, Ulrich explica que, embora seja uma tecnologia antiga, seu potencial só pôde ser plenamente explorado na era da computação.

A criptografia moderna, que é uma ramificação da matemática, permite a criação de comprovações
matemáticas com alto nível de segurança. No Bitcoin, a criptografia desempenha duas funções essenciais: impossibilitar que um usuário gaste os bitcoins de outro (autenticação e veracidade) e impedir que o blockchain seja violado e corrompido (integridade e segurança, evitando o gasto duplo).

Além disso, a criptografia pode ser usada para proteger a carteira do usuário com uma senha. Ulrich conclui que a aliança dessas duas tecnologias – uma rede descentralizada e a criptografia moderna – tornou realidade o que antes era inconcebível, transformando o cenário financeiro e
monetário.

Capítulo III: O que a teoria econômica tem a dizer sobre o Bitcoin

Fernando Ulrich inicia o Capítulo III com uma citação de Ludwig von Mises, alertando sobre o perigo de focar em aparências e falhar em distinguir entre coisas fundamentalmente similares ou distintas.

Ele confessa ter inicialmente rejeitado o Bitcoin devido à sua complexidade tecnológica, que intimida muitos economistas.

Ulrich argumenta que a existência do Bitcoin, antes inconcebível, exige que os economistas revisitem a teoria econômica com honestidade e humildade para interpretar a realidade.


O autor discute qual teoria monetária deve guiar a análise do Bitcoin, optando pela teoria monetária cataláctica de Mises, que explica os fenômenos monetários por meio das leis das trocas de mercado. Segundo essa teoria, o dinheiro surge dos intercâmbios de mercado, e seu valor é determinado pela lei da oferta e demanda.


Ulrich rejeita a Teoria Estatal da Moeda de Georg Friedrich Knapp, que atribui o valor da moeda a um decreto governamental, pois ela não seria capaz de analisar o Bitcoin, já que o estado não o reconhece como moeda.


Ulrich então define termos e conceitos cruciais. Ele explica que “meio de troca” é um bem econômico usado em trocas indiretas para solucionar o problema da dupla coincidência de desejos no escambo.

À medida que um meio de troca ganha mais mercado e liquidez, ele emerge como o meio de troca universalmente aceito, tornando-se “dinheiro”.

O autor esclarece a distinção entre “moeda” (currency) e “dinheiro” (money), utilizando o último no sentido de meio de troca universalmente aceito.

Ele enfatiza que, para o economista, a terminologia jurídica de moeda como um símbolo nacional é irrelevante, pois a moeda não é propriedade do soberano ou do governo, mas sim um fenômeno de mercado.

1.O nascimento do dinheiro

Fernando Ulrich inicia esta seção abordando as dúvidas sobre se o Bitcoin pode ser considerado dinheiro, se é apenas um sistema de pagamentos, se uma unidade virtual pode ser um bem, se possui valor intrínseco ou lastro, e se representa uma bolha especulativa.

Para responder a essas questões, ele propõe que a análise econômica do Bitcoin deve partir do estudo da ação humana, ou praxeologia, que lida com a conduta do homem em relação ao mundo exterior, independentemente da tangibilidade dos objetos.


Ulrich exemplifica a ação humana com a primeira transação de Bitcoin, realizada por
Satoshi Nakamoto com Hal Finney em 12 de janeiro de 2009.

Ele argumenta que, embora o fim exato da ação de Satoshi seja especulativo, o registro histórico
demonstra que os bitcoins foram usados como um meio para a consecução de um fim.


À medida que o Bitcoin progrediu, outros usuários também o empregaram para diversos objetivos, seja por curiosidade tecnológica, protesto ou entusiasmo pelo projeto.

O ponto crucial, segundo Ulrich, é que indivíduos agiram utilizando bitcoins como meio para atingir seus fins, o que é suficiente para a análise praxeológica.

2.Escassez intangível e autêntica

Ulrich aprofunda a discussão sobre o valor do Bitcoin, começando pela questão de sua utilidade. Ele explica que, no início, bitcoins eram adquiridos para consumo direto, ou seja, para satisfazer uma necessidade individual, o que é o ponto de partida para qualquer bem se tornar um meio de troca.

Ele enfatiza que a utilidade é subjetiva, percebida pelo indivíduo e não observável por terceiros. Ulrich cita Mises para diferenciar a utilidade praxeológica (valor de uso subjetivo) da utilidade tecnológica
(valor de uso objetivo).


O autor argumenta que o valor de uso objetivo de um bitcoin reside no fato de que somente ele pode ser usado na rede Bitcoin para transferências e para designar propriedade de um bem. Ele prevê que outras utilidades e aplicações podem surgir com o desenvolvimento da rede.

Quanto ao valor de uso subjetivo, Ulrich afirma que os bitcoins foram e são valorados pelos indivíduos que os adquirem e utilizam, independentemente do uso pretendido.


Ulrich então introduz o teorema da regressão de Ludwig von Mises, que explica a origem e o valor do dinheiro.

Segundo esse teorema, um bem só pode se tornar um meio de troca se, antes, já tiver obtido algum valor como mercadoria. Ele usa o exemplo do ouro, que foi escolhido pelo mercado ao longo de séculos por suas qualidades intrínsecas e, posteriormente, como meio de troca.

No caso do Bitcoin, Ulrich destaca que, embora sua data de nascimento seja exata (3 de janeiro de 2009), ele foi inicialmente adquirido para satisfazer necessidades individuais, não como meio de troca, o que está em conformidade com o teorema da regressão.

Ele refuta a alegação de que o Bitcoin contraria o teorema, explicando que o teorema não exige um valor de uso objetivo amplo ou uma intensidade específica de uso, mas sim a presença de algum valor de uso subjetivo prévio ao valor de troca.

3.Moeda tangível e intangível

Ulrich traça um paralelo entre o surgimento do ouro como moeda e o Bitcoin, questionando o valor de uso objetivo inicial do ouro, que, apesar de suas poucas aplicações práticas iniciais (além de adorno), acabou se tornando um meio de troca universalmente aceito.

Ele explica que, uma vez que um bem se torna moeda, seu valor pode depender exclusivamente de seu uso como meio de troca, e não mais de seu valor de uso objetivo original.

O autor argumenta que o Bitcoin segue um caminho semelhante. De uma “mercadoria virtual” com pouco valor de uso objetivo, mas com algum valor de uso subjetivo percebido por alguns indivíduos, o bitcoin passou a ser empregado como meio de troca.

Ulrich cita a primeira transação conhecida de Bitcoin, em maio de 2010, quando 10 mil BTC foram trocados por uma pizza, como um marco histórico. Ele afirma que o Bitcoin fornece uma “perfeita ilustração histórica” do teorema da regressão de Mises, que postula que o dinheiro não surge imediatamente como meio de troca, mas sim de um bem que já possuía valor como mercadoria.

Ulrich conclui que não há incompatibilidade entre o teorema da regressão de Mises e o surgimento do Bitcoin; ao contrário, o Bitcoin é a mais recente ilustração histórica desse teorema praxeológico.

4.Dinheiro, meio de troca ou o quê?

Ulrich discute a natureza da escassez em bens econômicos, afirmando que os meios são sempre escassos, ou seja, insuficientes para alcançar todos os objetivos humanos.

Ele explica que o uso de um bem por um indivíduo exclui o uso por outros no mesmo instante. Embora essa relação seja facilmente observada em bens físicos, Ulrich explora como isso se aplica a bens digitais como o Bitcoin, que, à primeira vista, parecem infinitamente reproduzíveis e, portanto, não escassos.


O autor, citando Tucker e Kinsella, refina o conceito de escassez, distinguindo entre bens econômicos escassos (como um sapato), bens não econômicos escassos (como uma lesma), bens econômicos não escassos (como uma receita de bolo, que pode ser copiada sem prejuízo ao original) e bens não econômicos não escassos.

Ele enfatiza que o advento da mídia digital expandiu a categoria de bens econômicos não escassos, onde um arquivo digital pode ser reproduzido inúmeras vezes sem que a cópia original seja prejudicada.


No entanto, Ulrich argumenta que o Bitcoin é distinto. Devido ao seu protocolo, que registra todas as transações no blockchain e impede o gasto duplo, uma unidade de bitcoin só pode existir em uma carteira por vez.

Isso significa que o Bitcoin é um bem econômico escasso, “não copiável enquanto o original permanece intacto e não utilizável por múltiplos atores simultaneamente e sem interferência mútua”.

Ele destaca que apenas 21 milhões de unidades de Bitcoin podem ser criadas, e que ninguém pode gastar a mesma unidade diversas vezes ou por vários usuários simultaneamente. Essa característica, segundo Ulrich, define o Bitcoin como um bem escasso, apesar de sua natureza digital.

5.Ouro, papel-moeda ou bitcoin?

Ulrich explora a evolução do dinheiro, desde bens tangíveis como tabaco, sal e gado, até o ouro e a prata, que se tornaram os meios de troca predominantes. Ele destaca que a característica comum a esses bens era a tangibilidade.

Com o desenvolvimento econômico, surgiram os serviços de custódia de ouro, inicialmente por ourives e depois por bancos, que emitiam certificados de armazenagem.

Esses certificados, ou cédulas bancárias, passaram a circular como substitutos do metal, facilitando o uso do dinheiro metálico. Posteriormente, as contas-correntes surgiram, permitindo a movimentação de fundos sem a necessidade de transferir cédulas físicas, por meio de cheques. Até esse ponto, a oferta monetária não aumentava, pois as cédulas e contas eram meros substitutos do dinheiro físico lastreado em ouro.


A questão muda, segundo Ulrich, quando os bancos começam a operar com reservas fracionárias, emprestando a maior parte do dinheiro depositado e mantendo apenas uma fração. Nesse arranjo, os bancos criam dinheiro “do nada” por meio de registros contábeis, expandindo o crédito e gerando o que ele chama de “moeda bancária” ou “escritural”.

Ulrich enfatiza que a moeda escritural não existe materialmente, mas apenas nos livros de contabilidade do banco, sendo, em sua maioria, puramente digital nos dias atuais.

Ele argumenta que a existência de uma moeda intangível não é um impedimento para seu uso, pois a moeda escritural já desempenha a função de dinheiro há séculos.


O autor ressalta que, na ordem monetária e bancária moderna, os bancos centrais detêm o monopólio da emissão de moeda física e também criam moeda escritural na forma de reservas bancárias.

Os bancos comerciais também têm a capacidade de criar moeda escritural, embora sua capacidade seja controlada e coordenada pelo banco central.

Ulrich conclui que a intangibilidade do Bitcoin não é um problema, pois a humanidade já utiliza dinheiro intangível (moeda escritural) há muito tempo, e a natureza digital do Bitcoin é uma evolução natural nesse sentido.

6.Deflação e aumento do poder de compra, adicionando alguns zeros

Ulrich continua a discussão sobre a intangibilidade da moeda, mostrando que a moeda escritural (intangível) é predominante nas economias modernas.

Ele cita dados que indicam que, nos Estados Unidos, a moeda escritural representa mais de 55% do
dinheiro em circulação, e em países como a Zona do Euro, Japão, Suíça e China, essa proporção ultrapassa 80%.

No Reino Unido, a moeda física não chega a 5% da massa monetária total. Isso demonstra que a intangibilidade da moeda não é uma particularidade do Bitcoin, mas sim uma característica marcante do sistema monetário desde a criação da moeda escritural por meio das reservas fracionárias.


O autor ressalta que, embora a intangibilidade da moeda escritural tenha permitido a criação quase ilimitada de moeda pelos bancos, corroendo continuamente o poder de compra, a intangibilidade do Bitcoin, por outro lado, assegura sua escassez.

Essa escassez autêntica do Bitcoin, ao contrário da escassez controlada da moeda escritural, visa preservar e até aumentar seu poder de compra.

Ulrich também menciona que, a partir da intangibilidade do Bitcoin, é possível materializá-lo em dinheiro físico, citando exemplos de moedas físicas lastreadas em bitcoins que já surgiram no mercado.

7.O preço do bitcoin, oferta e demanda

Ulrich argumenta que o Bitcoin, por sua natureza e propriedades digitais, já oferece muitos dos serviços normalmente restritos aos substitutos de dinheiro, com custos de transação suficientemente reduzidos.

Isso torna improvável o surgimento de substitutos de dinheiro para o Bitcoin, o que, por sua vez, tem o potencial de tornar o sistema bancário em grande parte irrelevante e obsoleto, além de reduzir substancialmente a probabilidade do aparecimento de reservas fracionárias e, consequentemente, a expansão artificial de crédito e a formação de ciclos econômicos.


A grande vantagem do Bitcoin, segundo Ulrich, é que ele dispensa o intermediário, operando como um sistema peer-to-peer.

Não é necessário confiar em um banco para guardar o dinheiro, nem em uma empresa de liquidação de pagamentos para processar corretamente as transações, e, o mais importante, não é preciso se preocupar com a depreciação da moeda por um banco central.

Ulrich cita Surda, que observa que no Bitcoin, a confiança é substituída por comprovação matemática,
garantindo a solidez da moeda por meio da criptografia moderna.


O autor destaca o caráter dual do Bitcoin, que combina as características de um dinheiro commodity (oferta estável e controle físico) com um sistema de liquidação (baixos custos de transação, serviços de liquidação e registros históricos).

Ele reconhece que o Bitcoin ainda não atingiu seu estágio ideal devido à baixa liquidez e à dependência de “casas de câmbio” como pontos de contato com as moedas fiduciárias, mas o sistema permite que esse ideal seja alcançado.

Ulrich conclui que o Bitcoin é o arranjo monetário que mais se aproxima do ideal dos economistas da
Escola Austríaca, sendo a primeira oportunidade histórica de alcançar uma oferta monetária inelástica sem reformas legais e sem precisar abordar as reservas fracionárias.


Para comparar os atributos monetários do ouro, papel-moeda e Bitcoin, Ulrich analisa a durabilidade, divisibilidade, maleabilidade, uniformidade e escassez.

Ele afirma que o Bitcoin supera o ouro e o papel-moeda em durabilidade (salvo a inexistência da
internet), pois bens digitais não sofrem alteração espacial ou temporal.

Em divisibilidade, o Bitcoin é perfeitamente divisível, com oito casas decimais e a possibilidade de adicionar mais, superando o limite físico do ouro.

Em uniformidade, o Bitcoin é insuperavelmente uniforme devido à sua natureza matemática, sendo
impossível falsificá-lo, ao contrário do ouro (que depende de verificações de pureza) e do papel-moeda (que pode ser falsificado).


No quesito escassez, o Bitcoin se sobressai por sua escassez intrínseca, autêntica e intangível, assegurada pela criptografia e pela ausência de terceiros fiduciários que possam aumentar a oferta monetária.

Embora o ouro também seja naturalmente escasso, seu uso monetário depende de um sistema bancário que pode introduzir substitutos de dinheiro não lastreados, enfraquecendo sua escassez.

A oferta inelástica do Bitcoin é superior à capacidade ilimitada de impressão de papel-moeda
pelos bancos centrais.

Finalmente, Ulrich ressalta que o Bitcoin reúne em um único sistema serviços que normalmente exigem uma vasta rede de intermediários (bancos, casas de liquidação, bancos centrais), algo que um sistema monetário baseado em ouro ou papel-moeda jamais poderia dispensar.

8.Valor intrínseco ou propriedades intrínsecas?

Fernando Ulrich aborda a objeção comum de que o Bitcoin não possui “valor intrínseco” por ser uma unidade virtual e não material.

Ele refuta essa crítica argumentando que não existe valor intrínseco, mas sim “propriedades intrínsecas” (químicas e físicas), e que o valor é subjetivo, residindo na mente de cada indivíduo.


Ulrich cita Jon Matonis, que descreve o Bitcoin como “ouro digital”, mas que, em vez de depender de propriedades químicas, depende de “propriedades matemáticas”.


Isso significa que as propriedades do Bitcoin resultam de seu design de sistema, permitindo que os usuários o valorizem subjetivamente, o que é demonstrado pelas transações livres com bitcoins.


O autor também confronta a crítica de que o Bitcoin, além de seu valor de troca, não apresenta um valor de uso não-monetário amplamente reconhecido. Ele questiona como o ouro conseguiu emergir como dinheiro, sendo que seu principal valor de uso séculos atrás era basicamente adorno.

Ulrich argumenta que, mesmo hoje, mais de 90% da demanda por ouro deriva de seu uso monetário. Ele conclui que a ausência de um uso não-monetário amplamente reconhecido não impede que o Bitcoin se torne um meio de troca universalmente aceito, e que tal assertiva não pode ser considerada
conclusiva a priori.

9.A falta de lastro aparente não é um problema

Fernando Ulrich aborda a crítica de que o Bitcoin é desprovido de lastro, o que leva muitos economistas a considerá-lo deficiente.

Ele argumenta que o lastro não é uma necessidade teórica da moeda, mas uma tecnicalidade empírica que serviu como restrição às práticas imprudentes de banqueiros e às investidas inflacionistas do
estado.

Historicamente, o ouro foi o principal lastro, e os certificados de depósito eram aceitos como dinheiro devido à sua conversibilidade em ouro, o que impunha disciplina bancária.


Ulrich explica que, com a ascensão dos bancos centrais, o lastro em ouro assumiu contornos diferentes.

As moedas nacionais, embora lastreadas em ouro, eram denominações de certa massa de ouro ou prata. Os governos, ao monopolizar a emissão de moeda, enfrentavam o dilema de manter a paridade entre o valor de face do bilhete e seu valor de mercado.

A inflação da oferta de bilhetes levava à depreciação do valor de mercado, incitando resgates em espécie. Os governos então buscavam remover o vínculo com o ouro para emitir moeda sem restrições.


O autor ressalta que, a partir do final do século XIX, o ouro pouco circulava, e sua função principal era servir como âncora de valor e disciplinador contra a inflação dos papéis-moedas nacionais.

Ele propõe um experimento mental: mesmo em um sistema lastreado 100% em ouro, não escaparíamos do mundo virtual e eletrônico, pois carregar ouro é ineficiente e perigoso. Ulrich conclui que um padrão-ouro sem um sistema bancário digital e substitutos de dinheiro seria inadequado para a economia globalizada atual.

Ele enfatiza que o ouro e o papel-moeda também dependem de tecnologias para sua mineração, cunhagem, transporte e movimentação, e que a grande revolução do Bitcoin é sua capacidade de replicar a escassez relativa do ouro sem suas desvantagens de manuseio e transporte.

Além disso, o Bitcoin elimina a necessidade de intermediários, permitindo que o usuário seja seu próprio banco e garantindo a propriedade da moeda por meio da criptografia, evitando o gasto duplo.


Ulrich destaca que, no Bitcoin, a unidade monetária (1 BTC) é o próprio equivalente ao dinheiro físico atual, o que tem consequências extraordinárias.

10.A política monetária do Bitcoin

Fernando Ulrich inicia a discussão sobre a política monetária do Bitcoin, comparando-a com as políticas dos bancos centrais.

Ele explica que, desde o primeiro banco central (Riksbank, Suécia, 1668), as autoridades monetárias têm aprimorado ferramentas e estratégias para manipular a oferta de moeda na economia.

O autor ressalta que, apóso fim da conversibilidade do dólar em ouro, os bancos centrais ganharam maior liberdade para conduzir suas políticas monetárias.


Ulrich argumenta que, no sistema atual de inconversibilidade absoluta dos papéis-moedas nacionais, os bancos centrais não conseguiram abster-se do poder de emissão de dinheiro, depreciando as moedas nacionais.

Com o Bitcoin, o dilema da oferta monetária é equacionado: a emissão é competitiva e paulatina, limitada a 21 milhões de unidades, assegurada matematicamente e criptograficamente.

Ele compara o lastro do ouro (escassez inerente), do papel-moeda (confiança e leis de curso forçado)
e do Bitcoin (propriedades matemáticas que garantem uma oferta monetária com aumento decrescente e limite máximo pré-sabido).

Ulrich conclui que, enquanto o lastro físico e matemático garantem escassez de oferta, o lastro governamental garante apenas uma demanda mínima, não uma oferta inelástica, o que significa que
o lastro estatal não assegura uma moeda boa, mas apenas que uma moeda ruim tenha aceitação no mercado.

Capítulo IV: A liberdade monetária e o Bitcoin

Fernando Ulrich discute como o fim do padrão-ouro libertou os bancos centrais das restrições impostas pelo lastro em metal precioso, permitindo-lhes inflacionar a oferta de papel-moeda ilimitadamente.

Ele descreve a era moderna dos bancos centrais como um processo de tentativa e erro, com políticas monetárias que evoluíram de metas de crescimento da oferta monetária para o controle da taxa de juros, sempre com o objetivo de manipular a oferta de moeda na economia.


Em contraste, Ulrich apresenta a política monetária do Bitcoin como baseada em regras e assegurada pela natureza distribuída da rede. Ele a descreve como uma “meta de oferta monetária assintótica” (MOMA), onde a emissão de bitcoins é realizada por mineradores que garantem a independência da política monetária e processam pagamentos.

Ulrich destaca três fenômenos monetários resultantes dessa política: agentes econômicos racionais mantêm encaixe em bitcoins mesmo sem passivos denominados em bitcoins; o mercado estabelece as taxas de câmbio e de juros; e é altamente improvável o aparecimento de reservas fracionárias.

Ele argumenta que a previsibilidade da oferta monetária futura do Bitcoin, seu limite máximo de 21 milhões de unidades e sua perfeita divisibilidade, juntamente com o fato de ser um ativo sem risco de contraparte, o tornam uma alternativa superior ao sistema monetário atual.

1.As reservas fracionárias, o tantundem e o Bitcoin

Fernando Ulrich explora a probabilidade reduzida de reservas fracionárias no sistema Bitcoin, argumentando que o Bitcoin, ao oferecer as vantagens tecnológicas tanto do dinheiro commodity quanto de um substituto de dinheiro, torna o surgimento de um substituto de uma unidade monetária de bitcoin redundante.

Ele explica que o sistema Bitcoin, por si só, já proporciona uma redução substancial dos custos de
transação, sendo ao mesmo tempo uma moeda e um sistema de pagamentos, algo sem precedentes na história monetária.


Ulrich detalha a origem da atividade bancária no serviço de custódia de bens monetários. Ele descreve como os bancos, ao custodiar bens fungíveis, passaram a restituir aos depositantes uma quantidade equivalente em gênero e qualidade (tantundem), e como os certificados de depósito evoluíram para bilhetes de banco que circulavam como dinheiro.

A prática das reservas fracionárias surgiu quando os bancos perceberam que os depositantes raramente resgatavam seus depósitos, emitindo bilhetes sem lastro em dinheiro material, o que levava à insolvência em caso de corrida bancária.

Essa prática, milenar, atingiu seu ápice no século passado com o auxílio dos bancos centrais e hoje é regra, respaldada por lei.


Em contraste, Ulrich explica que, ao usar o cliente Bitcoin em um computador pessoal, não há contrato de depósito com um banco ou casa de custódia; o usuário é seu próprio banco e custodia seu próprio tantundem.

Isso garante a posse, controle e uso irrestrito dos bitcoins pelo proprietário. Ele também aborda os serviços de carteira online, como o blockchain, que, embora pareçam similares aos serviços bancários
tradicionais, não custodiam os bitcoins do usuário.

O provedor apenas facilita o uso da rede Bitcoin, e o usuário mantém a posse e o controle de seus bitcoins, sem transferência de propriedade. Isso, segundo Ulrich, é uma distinção crucial que impede a prática de reservas fracionárias no Bitcoin, pois o provedor não tem acesso aos fundos do usuário.

2. Outras considerações

Fernando Ulrich aborda outras preocupações comuns levantadas pelos críticos do Bitcoin. Ele refuta a ideia de que a dependência de eletricidade e internet seja uma desvantagem exclusiva do Bitcoin, argumentando que a economia globalizada e interconectada, incluindo o sistema bancário, já depende dessas tecnologias.

Ele considera improvável que governos tentem “derrubar” a internet para obstruir a rede Bitcoin, citando a ineficácia de tentativas anteriores de conter redes como o BitTorrent.

Ulrich também desmistifica a preocupação com ataques à rede, enfatizando a abertura e transparência do código-fonte do Bitcoin, que permite a verificação e monitoramento por qualquer um.

Ele reconhece que o Bitcoin não é à prova de falhas, mas destaca a ausência de registros de ataques ao blockchain, diferenciando-os de problemas em casas de câmbio.


Ulrich também discute a concorrência das altcoins (moedas alternativas), refutando a alegação de que a ausência de barreiras de entrada inviabilizaria o Bitcoin. Ele argumenta que, em um ambiente de liberdade de escolha de moeda, o meio de troca que mais reduz os custos de transação tende a sobressair.

O Bitcoin, por ser a primeira moeda digital, goza do “efeito de rede”, o que torna difícil para novas moedas superá-lo, mesmo que tecnologicamente superiores.

Por fim, Ulrich contesta a afirmação de que o Bitcoin só funciona se puder ser convertido em moeda fiduciária. Ele argumenta que, se o Bitcoin é dinheiro de fato, os usuários podem utilizá-lo para se libertar do sistema de moeda fiduciária, e que, com o aumento da aceitação, a necessidade de
conversão para moedas locais diminuirá, pois produtores e consumidores aceitarão bitcoins diretamente.

Créditos Finais

Este resumo e análise foram inspirados e baseados na obra original “Bitcoin: A Moeda
na Era Digital”, de Fernando Ulrich.

Agradecemos ao autor por sua contribuição inestimável para a compreensão do Bitcoin e da economia monetária. Autor do Livro Original: Fernando Ulrich Título da Obra: Bitcoin: A Moeda na Era
Digital

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